Quase 90% dos pequenos transportadores de drogas são réus primários, aponta estudo da OEA
Cerca de 90% dos pequenos transportadores de drogas entre países da América Latina e a Espanha cometiam esse delito pela primeira vez, e mais de 60% aceitaram fazê-lo por dificuldades econômicas, segundo um estudo publicado nesta quinta-feira (22) pela Organização dos Estados Americanos (OEA).
O relatório, elaborado ao longo dos últimos dois anos pela OEA, por meio da Comissão Interamericana para o Controle do Abuso de Drogas (CICAD), baseia-se em entrevistas com pessoas presas por narcotráfico na Espanha e no Peru.
Os pesquisadores entrevistaram 386 pessoas de países da América Latina e do Caribe, além de outras regiões, para traçar o perfil dos chamados correios humanos de drogas, também conhecidos como mulas.
"O perfil descrito pelo estudo se afasta do estereótipo do criminoso profissional. Para 87,5% dos entrevistados, era a primeira vez que eram encarcerados e, para 85,9%, a primeira vez que transportavam drogas”, aponta o estudo, considerado o primeiro do tipo por seus autores.
Em troca de pagamentos que variam de 6.000 a 9.000 dólares (R$ 30.000 a 45.000) por viagem, essas pessoas aceitam transportar drogas, principalmente cocaína, em suas malas ou junto ao corpo, em voos diretos ou com escalas.
“O crime organizado busca perfis com múltiplas situações de vulnerabilidade”, explicou, em entrevista coletiva por videoconferência, Antonio Lomba, diretor do projeto.
“Uma em cada cinco pessoas entrou nesse tipo de ciclo por coação ou influência. Não são profissionais do narcotráfico”, acrescentou o especialista da CICAD, órgão vinculado à OEA.
O transporte de drogas é realizado tanto por homens quanto por mulheres. Elas se tornam mulas a pedido dos parceiros em 14% dos casos, uma proporção superior à registrada entre os homens, de 0,7%.
Para ambos os sexos, porém, as amizades são o principal fator de entrada nessa atividade, citadas em 61% dos casos.
Os homens recebem pagamentos ligeiramente superiores aos das mulheres pelo transporte das drogas.
Segundo o estudo, as organizações criminosas arcam com todas as despesas em 70% dos casos. Quando ocorre uma prisão, porém, os criminosos desaparecem, deixando os transportadores sozinhos para enfrentar as consequências.
“São pessoas que vão embora, deixam crianças e idosos em casa e dizem que voltarão em dois dias, mas acabam não retornando por seis ou sete anos”, devido às penas de prisão, explicou Lomba.
(A.Laurent--LPdF)